A Sinagoga
A Palavra lida a cada sábado
Casa de reunião, leitura e oração das comunidades judaicas. Ali Jesus leu Isaías em Nazaré, e por ali Paulo começava sua pregação em cada cidade.
Uma assembleia antes de um prédio
Sinagoga vem do grego synagōgē, reunião, assembleia. A palavra designava primeiro a comunidade reunida e só depois o edifício. Outro nome comum era proseuchē, lugar de oração, que aparece em Filipos, onde Paulo encontra mulheres reunidas à beira de um rio num sábado (Atos 16:13). Não se sabe com certeza quando a instituição nasceu. Uma tradição antiga a liga ao exílio na Babilônia, quando os judeus ficaram sem Templo, mas as provas mais antigas são inscrições do Egito, no século III a.C., que dedicam casas de oração judaicas em favor do rei Ptolomeu. Na terra de Israel, os edifícios conhecidos surgem mais tarde, por volta do século I a.C. Em muitas aldeias da Galileia, a assembleia talvez se reunisse numa praça, numa casa maior ou num prédio público usado também para outras funções. O essencial não eram as paredes, mas o povo reunido ao redor da Lei de Moisés.
O que se fazia num sábado
O coração da reunião era a leitura pública das Escrituras. Josefo explica que Moisés mandou o povo deixar o trabalho a cada semana para ouvir e aprender a Lei (Contra Apião 2), e Fílon chama as sinagogas de escolas abertas a cada sétimo dia, onde se ensinavam virtudes e deveres (As Leis Especiais 2). Atos confirma o roteiro: leitura da Lei, depois dos Profetas, e em seguida uma palavra de exortação de alguém presente (Atos 13:15). Na Judeia e na Galileia, o texto hebraico provavelmente era acompanhado de tradução ou explicação em aramaico; na Diáspora, lia-se em grego. Orações comunitárias existiam em muitos lugares, mas a forma fixa das orações rabínicas é posterior, e os estudiosos discutem quanto dela já existia antes de 70. A sinagoga era também tribunal local, lugar de assembleia da aldeia, ponto de coleta de ajuda aos pobres e, em alguns casos, hospedaria para viajantes.
Pedras que falam: Teódoto, Gamla e Magdala
A arqueologia confirmou que havia sinagogas na terra de Israel antes de 70. Nas escavações de 1913 e 1914 no monte Ofel, em Jerusalém, apareceu uma placa em grego: Teódoto, filho de Vetenos, sacerdote e chefe de sinagoga, filho e neto de chefes de sinagoga, construiu o edifício para a leitura da Lei e o ensino dos mandamentos, com hospedaria e instalações de água para quem vinha de fora. A maioria data a inscrição antes de 70, embora haja quem proponha data posterior. Em Gamla, nas colinas de Golã, cidade destruída pelos romanos em 67, há um salão com bancos de pedra em volta. E em 2009, durante a construção de um centro para peregrinos em Magdala, à margem do mar da Galileia, surgiu uma sinagoga do século I, com bancos, piso de mosaico e uma pedra entalhada com um candelabro de sete braços. Que Jesus tenha ensinado ali é possível, mas não comprovado.
Um sábado em Nazaré
Lucas 4 traz a descrição mais antiga de uma reunião de sinagoga. Jesus entra em Nazaré, como era seu costume, no sábado, e se levanta para ler. O assistente lhe entrega o rolo do profeta Isaías; ele encontra o trecho do capítulo 61 sobre o ungido que anuncia boas-novas aos pobres e libertação aos cativos, que Lucas apresenta combinado com uma frase de Isaías 58. Depois enrola o rolo, devolve-o ao assistente e se senta, porque o mestre ensinava sentado. Todos os olhos se fixam nele. Não sabemos se naquela época já havia uma leitura fixa dos Profetas para cada sábado; a escolha pode ter sido dele. O que impressiona é a frase seguinte: hoje isso se cumpriu. A cena mostra Jesus como judeu praticante, integrado à vida da sua aldeia, e ao mesmo tempo explica por que a assembleia passou da admiração à fúria (Lucas 4:28-29).
Chefes, assistentes e primeiros assentos
Cada sinagoga tinha líderes reconhecidos. O chefe da sinagoga, archisynagōgos, organizava as reuniões e escolhia quem ia ler ou falar; nos Evangelhos aparecem Jairo, na região do mar da Galileia (Marcos 5:22), e um chefe irritado com uma cura em sábado (Lucas 13:14); em Corinto, Crispo creu com toda a sua casa (Atos 18:8). O assistente, hypēretēs, guardava os rolos e ajudava no serviço (Lucas 4:20). Anciãos representavam a comunidade, como os que intercedem pelo centurião de Cafarnaum (Lucas 7:3-5). Em edifícios como os de Gamla e Magdala, os bancos corriam ao longo das paredes, de modo que todos se viam, e os melhores lugares eram sinal de honra: daí a crítica de Jesus aos que amavam os primeiros assentos nas sinagogas (Mateus 23:6). A sinagoga também exercia disciplina. Jesus avisa que seus discípulos seriam açoitados nas sinagogas (Mateus 10:17), e João fala de quem era expulso por confessar Jesus (João 9:22).
Paulo e a rede de sinagogas do Império
No século I havia comunidades judaicas em quase todas as cidades importantes do Mediterrâneo, de Alexandria a Roma, e cada uma tinha suas assembleias. Tiago lembra que Moisés era lido nas sinagogas de cada cidade todos os sábados (Atos 15:21). Essa rede explica o método de Paulo: ao chegar a uma cidade, ia primeiro à sinagoga, segundo o seu costume (Atos 17:2). Ali encontrava judeus e também gentios simpatizantes, chamados tementes a Deus (Atos 13:16), que frequentavam as reuniões, conheciam as Escrituras e às vezes financiavam a comunidade. Uma inscrição de Acmônia, na Frígia, do tempo de Nero, lembra que Júlia Severa, sacerdotisa do culto imperial e, ao que tudo indica, não judia, construiu o prédio de uma sinagoga. Muitos dos primeiros cristãos vieram desse público. A igreja nasceu, em boa parte, dentro dessas salas, e herdou delas a leitura das Escrituras, a pregação e a oração em comum.
Você sabia?
- As provas mais antigas de sinagogas não vêm de Israel, mas do Egito: inscrições do século III a.C. dedicam casas de oração judaicas em favor do rei Ptolomeu III e da rainha Berenice. Inscrição de Schedia, Egito, séc. III a.C.
- A inscrição de Teódoto, achada em Jerusalém, diz que a sinagoga tinha hospedaria e instalações de água para visitantes de fora. Alguns estudiosos a ligam à sinagoga dos Libertos de Atos 6:9, hipótese não comprovada. Inscrição de Teódoto, Jerusalém, 1913–1914; Museu de Israel
- A pedra de Magdala, achada em 2009 no centro da sinagoga do século I, traz um candelabro de sete braços entalhado, uma das representações mais antigas da menorá fora do Templo. Sinagoga de Magdala, 2009; Autoridade de Antiguidades de Israel
- A sinagoga de calcário branco que se visita hoje em Cafarnaum é dos séculos IV ou V. Por baixo dela há alicerces de basalto que alguns arqueólogos atribuem à sinagoga do tempo de Jesus, o que ainda se discute. Escavações franciscanas em Cafarnaum, desde 1968
- Uma inscrição do século I, em Acmônia, na Ásia Menor, conta que uma mulher pagã, Júlia Severa, sacerdotisa do culto imperial, construiu o prédio de uma sinagoga, como o centurião de Cafarnaum. Inscrição de Acmônia, Frígia, séc. I; Lucas 7:5
Onde isso aparece na Bíblia
- Lucas 4:16-21: Cada gesto segue o costume da sinagoga: levantar-se para ler, receber o rolo do assistente, sentar-se para ensinar. Tudo parece rotina de um sábado na aldeia, até a frase final. Jesus não apenas comenta Isaías; afirma que a promessa de libertação se cumpre diante deles. O lugar da leitura semanal se torna o lugar do anúncio do Reino.
- Marcos 1:21-22: A sinagoga permitia que um visitante ou membro da comunidade ensinasse depois da leitura, e Jesus aproveita esse espaço desde o início do ministério. O povo nota a diferença: os escribas ensinavam citando tradições e mestres anteriores; Jesus fala com autoridade própria. O costume da sinagoga abriu a porta para a novidade do seu ensino.
- Lucas 7:1-5: Os anciãos judeus de Cafarnaum intercedem por um centurião romano porque ele amava o povo e construiu a sinagoga. Inscrições como a de Júlia Severa, na Ásia Menor, mostram que benfeitores não judeus de fato financiavam sinagogas. O detalhe histórico prepara a surpresa: Jesus acha nesse estrangeiro uma fé que não encontrou em Israel.
- Atos 13:14-16: Lucas descreve a ordem do culto numa sinagoga da Diáspora: leitura da Lei e dos Profetas, depois um convite dos chefes para uma palavra de exortação. Paulo aproveita o convite e se dirige a dois públicos, os israelitas e os tementes a Deus. A estrutura da sinagoga deu ao evangelho uma plateia pronta, que conhecia as Escrituras.
- Atos 15:21: No concílio de Jerusalém, Tiago lembra que Moisés era lido em cada cidade, todos os sábados. A frase revela uma rede de sinagogas espalhada pelo Império, onde judeus e simpatizantes ouviam a Lei semana após semana. Por isso as recomendações aos cristãos gentios levavam em conta a sensibilidade dos vizinhos judeus.
- Atos 6:9: Em Jerusalém havia sinagogas de judeus vindos da Diáspora, como a dos Libertos, com gente de Cirene, Alexandria, Cilícia e Ásia. A inscrição de Teódoto, com hospedaria para quem vinha de fora, mostra um lugar assim. É nesse ambiente de judeus de fala grega que Estêvão debate, e de onde vem a oposição que o levará à morte.
Para ir mais fundo
- Lee I. Levine, The Ancient Synagogue: The First Thousand Years (2ª ed., 2005)
- Anders Runesson, Donald D. Binder e Birger Olsson, The Ancient Synagogue from Its Origins to 200 C.E.: A Source Book (2008)
- Inscrição de Teódoto, Museu de Israel, Jerusalém
- Fílon de Alexandria, Embaixada a Gaio; As Leis Especiais, livro 2
- Flávio Josefo, Contra Apião, livro 2
Onde ler na Bíblia
- Lucas 4:16
- Atos 17:1-2
Ligações
- ficava em Nazaré · factual · Lucas 4:16
- ficava em Cafarnaum · factual · Marcos 1:21
- ligado a Paulo · factual · Atos 17:1-2
- ligado a O Sábado e a Pureza · factual · Lucas 13:10
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