Os cobradores de impostos
Publicanos, alfândegas e Zaqueu
Na Galileia e na Judeia, cobrar impostos significava servir a Roma ou a Herodes e lucrar com o excedente. Por isso os publicanos eram vistos como traidores — e Jesus comia com eles.
Quanto custava viver sob Roma
Um camponês da Galileia pagava muitas contas ao mesmo tempo. Havia o tributo sobre a terra, calculado sobre a colheita; um imposto por pessoa, que Roma exigia nas províncias recenseadas, como a Judeia; taxas sobre mercadorias que passavam por estradas, pontes e portos; e, do lado religioso, o dízimo e o meio siclo anual do Templo. Um decreto de Júlio César preservado por Josefo fixa para a Judeia, segundo uma leitura comum, um tributo de um quarto do que se semeava, pago a cada dois anos, com isenção no ano sabático (Antiguidades 14.202-203). Quanto tudo isso pesava é muito debatido: as estimativas modernas da carga somada de impostos civis e religiosos vão de menos de um quinto a mais de um terço da produção. O certo é que, para quem vivia perto da subsistência, um ano de seca tornava a conta impagável, e as dívidas cresciam. Os impostos eram também um lembrete diário de quem mandava na terra que Deus dera a Israel.
Quem eram os publicanos
A palavra publicano vem do latim publicanus, o contratante do Estado. Na República romana, companhias de homens ricos da ordem equestre compravam em leilão o direito de cobrar impostos de uma província: pagavam a Roma o valor combinado e ficavam com o que conseguissem arrecadar além disso. O sistema gerou abusos famosos. No tempo de Jesus, porém, o tributo direto na Judeia era recolhido sobretudo por autoridades locais, e os ‘publicanos’ dos Evangelhos eram outra coisa: em grego, telônai, cobradores de pedágios e taxas, muitas vezes judeus, que arrendavam um posto de cobrança de um contratante maior ou do governante. Na Galileia, trabalhavam para a administração de Herodes Antipas; na Judeia, dentro do sistema ligado ao prefeito romano. A lógica era a do velho arrendamento: pagava-se adiantado e lucrava-se com o que se cobrava a mais. Por isso João Batista não mandou os cobradores largarem o ofício, mas não cobrarem além do estipulado (Lucas 3:13).
Uma coletoria em Cafarnaum
Mateus, também chamado Levi, estava sentado na coletoria quando Jesus o chamou. Cafarnaum ficava na margem norte do mar da Galileia, perto da fronteira entre o território de Antipas e o de seu irmão Filipe, do outro lado do Jordão. Por ali passavam uma estrada comercial e o movimento dos barcos do lago, e mercadorias que cruzavam a fronteira pagavam taxa. É provável que Levi cobrasse esses pedágios e, talvez, taxas sobre o pescado e outros produtos do mercado local, embora os detalhes não estejam documentados. Isso significa que os pescadores de Cafarnaum que seguiram Jesus conheciam bem o homem da coletoria; é bem possível que já tivessem pago a ele. A cena do chamado ganha outra cor. Jesus não chama um estranho distante, mas alguém que a cidade inteira via como parte do sistema que a apertava. E Levi responde com um banquete, reunindo seus colegas de ofício à mesa com Jesus.
Por que eram odiados
O desprezo pelos cobradores de impostos era quase universal no mundo antigo. Cícero põe os cobradores de pedágio e os agiotas entre os ofícios reprováveis, porque provocam o ódio das pessoas (Sobre os deveres 1.150). Entre os judeus, pesavam ainda outros motivos. O publicano lucrava servindo a Herodes ou a Roma, lidava com gentios e seu dinheiro e tinha fama de desonesto. A Mishná, compilada por volta de 200 d.C. mas com tradições mais antigas, diz que, se cobradores de impostos entram numa casa, a casa fica impura (Tohorot 7:6), e permite até fazer um voto enganoso para escapar deles (Nedarim 3:4). Nos Evangelhos, ‘publicanos e pecadores’ aparecem juntos como um bloco, e Jesus cita os cobradores como exemplo de quem só ama quem o ama (Mateus 5:46). Não eram excluídos por uma falha isolada, mas por uma posição social inteira: vistos como traidores, ladrões e impuros ao mesmo tempo.
Mateus e Zaqueu
Dois cobradores ganham nome nos Evangelhos. Mateus deixa a coletoria e se torna um dos Doze; a tradição da igreja antiga ligou a ele o primeiro Evangelho, onde aparece como ‘Mateus, o publicano’ (Mateus 10:3). Zaqueu, em Jericó, era algo maior: chefe dos cobradores e rico. Jericó era um oásis de palmeiras e de bálsamo, um produto caro, e ficava na rota entre a Pereia, do outro lado do Jordão, e Jerusalém; um posto de cobrança ali podia render muito. Quando Jesus se convida para a casa dele, a cidade murmura. A resposta de Zaqueu é concreta: metade dos bens aos pobres e devolução de quatro vezes o que tivesse extorquido, a mesma medida que a Lei exigia de quem roubasse e vendesse uma ovelha (Êxodo 22:1). Na parábola do fariseu e do publicano, Jesus leva a inversão ao extremo: o homem que o povo desprezava volta para casa justificado, porque pediu misericórdia.
César, Paulo e Nero
A pergunta sobre o imposto a César era uma armadilha perfeita. Se Jesus dissesse que não se devia pagar, seria denunciado como rebelde; se dissesse que sim, perderia o povo, que lembrava de Judas, o Galileu. Ele pede a moeda do tributo, um denário, provavelmente de Tibério, com a imagem do imperador e a inscrição que o chamava filho do divino Augusto. Quem carregava aquela moeda já usava o sistema de César; a imagem de Deus, porém, estava no ser humano. Cerca de 25 anos depois, Paulo escreveu aos cristãos de Roma que pagassem tributos e impostos (Romanos 13:6-7), usando as duas palavras técnicas gregas para o tributo direto e as taxas indiretas. Tácito conta que, pouco depois, em 58 d.C., houve tantas queixas contra os cobradores que Nero pensou em abolir todos os impostos indiretos do império; os senadores o convenceram a apenas publicar regras contra os abusos (Anais 13.50-51).
Você sabia?
- A Mishná diz que, se cobradores de impostos entram numa casa, a casa inteira fica ritualmente impura. Mishná, Tohorot 7:6
- Em 58 d.C., depois de muitas queixas contra os cobradores, Nero pensou em abolir todos os impostos indiretos do império; os senadores o dissuadiram. Tácito, Anais 13.50
- Cícero pôs os cobradores de pedágio entre os ofícios reprováveis, porque atraem o ódio das pessoas. Cícero, Sobre os deveres 1.150
- Uma inscrição de Palmira, de 137 d.C., lista em grego e aramaico as taxas sobre escravos, azeite, sal e outros produtos: um raro retrato de como funcionava uma alfândega no Oriente romano. Tarifa de Palmira (137 d.C.)
- A devolução de quatro vezes prometida por Zaqueu corresponde à pena da Lei para quem roubasse e vendesse uma ovelha. Lucas 19:8; Êxodo 22:1
Onde isso aparece na Bíblia
- Lucas 3:12-13: Os cobradores vão ao batismo de João e perguntam o que devem fazer. A resposta supõe o sistema de arrendamento: cada um tinha um valor estipulado a repassar e a tentação de cobrar muito mais. João não exige que abandonem o ofício, mas que deixem de explorar. O arrependimento ganha forma concreta, medida no bolso dos outros.
- Mateus 9:9-13: Mateus está trabalhando, sentado no posto de cobrança, quando ouve o chamado. Logo depois, Jesus come com publicanos e pecadores, e comer juntos significava aceitar. A crítica dos fariseus reflete o que muitos pensavam desses homens. Jesus responde como médico: veio exatamente para quem os outros evitavam.
- Lucas 19:1-10: Zaqueu é chefe dos cobradores numa cidade rica e estratégica, e todos sabem de onde vem sua fortuna. Jesus o chama pelo nome e se hospeda em sua casa antes de qualquer promessa. A mudança vem depois, generosa e mensurável. Jesus o chama de filho de Abraão: o traidor aos olhos da cidade é reintegrado ao povo de Deus.
- Lucas 18:10-14: Os ouvintes esperariam que o fariseu fosse o modelo e o cobrador, o contraexemplo. O publicano fica de longe, não levanta os olhos, bate no peito e só pede misericórdia. É ele quem volta justificado. A parábola usa a figura mais desprezada da sociedade para mostrar como Deus acolhe quem se humilha.
- Mateus 22:17-21: Fariseus e herodianos, grupos com posições diferentes diante de Roma, se unem na armadilha. Jesus pede a moeda e faz os próprios adversários mostrarem que a carregavam. Se a moeda traz a imagem de César, pode voltar a ele; o ser humano, que traz a imagem de Deus, pertence a Deus por inteiro.
- Romanos 13:6-7: Paulo escreve a cristãos que viviam na capital do império, pouco antes da onda de queixas contra os cobradores registrada por Tácito. Ele não idealiza o sistema, mas pede que paguem o que devem, tributos e taxas, e deem respeito e honra a quem cabe. A lealdade maior a Cristo não vira sonegação nem rebeldia.
Para ir mais fundo
- Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas, livros 14 e 18
- Tácito, Anais 13.50-51
- Mishná, tratados Tohorot e Nedarim
- Fabian E. Udoh, To Caesar What Is Caesar’s: Tribute, Taxes and Imperial Administration in Early Roman Palestine (2005)
- John R. Donahue, Tax Collectors and Sinners: An Attempt at Identification, Catholic Biblical Quarterly 33 (1971)
Onde ler na Bíblia
- Mateus 9:9
- Lucas 19:2
- Lucas 18:10
Ligações
- ligado a Mateus · factual · Mateus 9:9
- ligado a Zaqueu · factual · Lucas 19:2
- cobravam em Jericó · factual · Lucas 19:1
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