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Contexto histórico

Estradas, viagens e a Diáspora

Os caminhos por onde o Evangelho correu

Vias romanas, rotas marítimas, o grego como língua comum e sinagogas espalhadas do Eufrates a Roma formaram a rede por onde Paulo e os primeiros cristãos levaram o Evangelho.

Judeus por todo o mundo

No tempo de Jesus, é provável que vivessem mais judeus fora da terra de Israel do que dentro dela, embora os números exatos sejam desconhecidos. A dispersão começou com as deportações assíria, em 722 a.C., e babilônica, em 586 a.C.; muitos exilados nunca voltaram, e a Babilônia manteve uma grande comunidade judaica por séculos. Depois de Alexandre, judeus se espalharam pelo Egito, pela Síria, pela Ásia Menor, pela Grécia e por Roma. Alexandria tinha bairros judeus enormes; Fílon, que vivia lá, fala em um milhão de judeus no Egito, número provavelmente exagerado (Contra Flaco 43). O geógrafo Estrabão, citado por Josefo, escreveu que era difícil achar no mundo habitado um lugar onde esse povo não estivesse (Antiguidades 14.115). Foi em Alexandria, no século 3 a.C., que começou a tradução das Escrituras hebraicas para o grego, a Septuaginta, a Bíblia que a maioria desses judeus lia e que os autores do Novo Testamento citam com frequência.

A sinagoga em cada cidade

Longe do Templo, a vida judaica se organizava em torno da sinagoga, palavra grega que significa reunião; também se dizia proseuché, lugar de oração. Ali se liam a Lei e os Profetas no sábado, se ensinava, se resolviam questões da comunidade e se acolhiam viajantes. Em Jerusalém, uma inscrição achada em 1913 conta que Teódoto, sacerdote e chefe de sinagoga, construiu a casa para a leitura da Lei e o ensino dos mandamentos, com quartos de hóspedes e instalações de água para os que vinham de fora. Em Óstia, o porto de Roma, foram descobertas em 1961 as ruínas de uma sinagoga cujas fases mais antigas podem ser do século I, embora a datação seja discutida. Em torno das sinagogas circulavam também gentios atraídos pelo Deus de Israel, que Atos chama de tementes a Deus. Muitas vezes eram eles os primeiros a ouvir Paulo com interesse, e a sinagoga se tornou a porta de entrada do apóstolo em cada cidade nova.

Todos os caminhos

Os romanos construíram a maior rede de estradas do mundo antigo: estimativas falam em mais de 80 mil quilômetros de vias principais, com marcos de milha, pontes e estações para troca de animais. As estradas serviam antes de tudo ao exército e ao correio oficial, mas eram usadas por comerciantes, peregrinos e pregadores. A Via Ápia, iniciada em 312 a.C., ligava Roma ao sul da Itália; a Via Egnácia, construída a partir de cerca de 146 a.C., atravessava a Macedônia de costa a costa e passava por Filipos, Anfípolis, Apolônia e Tessalônica, exatamente a sequência de Atos 17:1. A pé, um viajante fazia de 25 a 30 quilômetros por dia; um mensageiro oficial, trocando de montaria, podia fazer muito mais. As hospedarias tinham má fama, e por isso a hospitalidade entre irmãos na fé era preciosa. Os perigos eram reais: rios em cheia, assaltantes, frio e fome, como Paulo lembra aos coríntios.

O mar e suas estações

Por mar, viajava-se mais depressa e mais barato, mas com mais risco. Não havia navios de passageiros: embarcava-se num navio de carga que fosse na direção desejada, levando a própria comida e dormindo no convés. A navegação segura ia mais ou menos do fim de maio a meados de setembro; de meados de novembro a meados de março o mar ficava praticamente fechado, como registra o escritor militar Vegécio (Compêndio da arte militar 4.39). Por isso Lucas observa que a viagem de Paulo se tornara perigosa porque o Jejum, o Dia da Expiação, no fim de setembro ou em outubro, já tinha passado. Os grandes navios de grãos levavam trigo do Egito para abastecer Roma, e alguns carregavam centenas de pessoas: o de Paulo tinha 276 a bordo. Josefo conta que, numa viagem a Roma por volta de 63 d.C., seu navio afundou em alto-mar com cerca de 600 pessoas, e só uns 80 se salvaram depois de nadar a noite inteira (Autobiografia 15).

Uma língua para o mundo

Desde as conquistas de Alexandre, o Grande, no século 4 a.C., o grego comum, chamado coiné, era a língua do comércio, da administração e da cultura em todo o Mediterrâneo oriental, e muito falado até em Roma. Um judeu de Tarso como Paulo, um comerciante de Corinto e um liberto de Roma podiam se entender em grego. Na Judeia e na Galileia, o povo falava aramaico no dia a dia, o hebraico era a língua das Escrituras e da oração, e o grego servia ao comércio e ao governo; o latim era a língua dos soldados e da lei romana. A lista de Pentecostes em Atos 2, de partos e medos a romanos, cretenses e árabes, mostra judeus de toda a Diáspora reunidos em Jerusalém, cada um com sua língua materna. Todo o Novo Testamento foi escrito em grego coiné, inclusive a carta aos Romanos. Por isso a mensagem pôde circular tão depressa: não precisava de tradução para chegar às cidades do império.

Paulo na rede do império

As viagens de Paulo mostram essa rede em funcionamento. Ele seguia estradas romanas e rotas marítimas, começava pela sinagoga e trabalhava com as mãos: em Corinto, hospedou-se com Áquila e Priscila, fabricantes de tendas, judeus que tinham deixado Roma quando Cláudio expulsou os judeus da cidade. Suetônio registra essa expulsão, motivada por tumultos ligados a um certo Cresto, talvez uma referência confusa a Cristo (Vida de Cláudio 25.4). Uma inscrição achada em Delfos menciona Gálio como procônsul da Acaia e permite datar a estadia de Paulo em Corinto por volta de 51 d.C. Estudiosos estimam que ele percorreu, ao todo, mais de 15 mil quilômetros. Ao chegar à Itália como prisioneiro, desembarcou em Putéoli e subiu pela Via Ápia; irmãos de Roma foram ao seu encontro na Praça de Ápio e nas Três Vendas, a cerca de 65 e 50 quilômetros da cidade. Autores cristãos antigos, como Orígenes, viram na paz romana uma preparação providencial para o Evangelho (Contra Celso 2.30).

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